Além de ser obviamente mencionada dominicalmente na recitação do Credo Apostólico ou no Credo Niceno, o Livro de Oração Comum faz referência à Virgem em outras ocasiões: particularmente no Calendário, nos Próprios e nas Orações Eucarísticas. Vejamos cada uma destas referências.
No calendário do LOC de 1987, no item 3, dedicado aos dias santos[4], encontramos três datas dedicadas a Maria. A primeira é a festa da Anunciação da Bem-aventurada Virgem Maria, comemorada no dia 25 de março. A segunda, é a festa da Visitação da Bem-aventurada Virgem Maria, comemorada dia 31 de Maio, e a terceira é a festa da Bem-aventurada Virgem Maria, celebrada no dia 15 de agosto. Devemos ressaltar que além destas datas, os antigos Livros de Oração Comum da Província do Brasil falavam de uma outra festa chamada de “Purificação da Virgem Maria” celebrada no dia 02 de fevereiro[5] e que, mais tarde, passa a se chamar de “Apresentação de Nosso Senhor Jesus Cristo no Templo”.
Os Próprios lidos nestes dias, nos dão uma pista do papel que a Virgem Maria desempenha na teologia anglicana. O primeiro próprio, lido no dia 25 de março, contém a seguinte oração:“Suplicamos-te, Senhor, que dotes com tua graça os nossos corações, para que, assim como pela mensagem de um anjo à Virgem Maria havemos conhecido a encarnação de teu filho Jesus Cristo, também por sua paixão e cruz sejamos levados à glória de sua ressurreição. Por Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.[6] O segundo próprio que menciona a Virgem Maria é o de 31 de maio, dia da Visitação da Bem-aventurada Virgem, e que diz o seguinte:“Ó Pai Celestial, por cuja graça uma virgem pura foi escolhida e abençoada para ser mãe de teu Filho, Jesus, mas muito mais abençoada em ter ouvido e guardado tua palavra...7].Finalmente o próprio do dia 15 de agosto que nos diz:
“Ó Deus, que chamaste à tua presença Maria, bem-aventurada mãe de teu Filho Encarnado, por cujo sangue fomos redimidos; concede-nos participar com ela na glória do teu eterno reino, por Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.[8]
Nas Orações Eucarísticas Ela é mencionada na oração eucarística do Rito II, quando se diz acerca do filho “Tu O enviaste para assumir a carne humana, nascer da Virgem Maria e ser o Salvador e Redentor do mundo”.[9] E também aparece no corpo da Grande Oração Eucarística B que diz: “Ó Pai, de tal maneira amaste o mundo que, na plenitude dos tempos, enviaste teu único Filho para ser nosso Salvador. Feito carne pelo Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria e viveu como um de nós, mas sem pecar”.[10] Ainda nesta mesma Oração, a Virgem aparece uma segunda vez ao se dizer: “E concede que participemos da herança dos Santos, [com a Bem-aventurada Virgem Maria, os Patriarcas, Profetas, Apóstolos e Mártires (e com NN)] e com todos os que tiveram o teu favor nos tempos passados”.[11]
Alguém já disse que “quem procura um santo busca um exemplo”. É assim que a Virgem Maria é vista na Comunhão Anglicana. Como um exemplo em muitas áreas da vida. Ela é, primeiro, exemplo de humildade. Ao ser confrontada com o Anjo ela reconhece sua condição humana e fala de sua indignidade. Maria nos dá um grande exemplo. Nos mostra que Deus pode “encher de graça” aqueles que dela necessitam. Martinho Lutero, em seu comentário do Magnificat, explicando porque traduziu a palavra “humildade” por “nulidade” ou “ser insignificante”, nos diz que Maria pretendia dizer o seguinte:“Deus olhou para mim, uma moça pobre, desprezada e insignificante. Ele poderia ter escolhido ricas importantes, nobres e poderosas rainhas, filhas de príncipes e grandes autoridades. Poderia muito bem ter escolhido a filha de Anãs ou Caifás, que teriam sido os maiorais do país. Porém ele olhou para mim, por pura bondade e usou para este fim uma moça humilde e desprezada. Diante dele ninguém deveria vangloriar-se de ter sido digno disso. Também eu tenho que confessar que se trata de pura graça e bondade. Não há merecimento ou dignidade nenhuma de minha parte”.[13]
Maria é também vista como exemplo de desprendimento. Poderíamos até especular (e sei que isto já foi feito) sobre o que teria acontecido se ela tivesse rejeitado a proposta de Deus. Mas o dado é que ela abraçou o convite de Javé e, ao fazer isso, disse não a sua própria vida, a seus projetos, a seus sonhos, a tudo o que havia imaginado com seu marido. Ela estaria eternamente ligada àquele que seria seu Filho e Salvador do mundo e à sua Missão.
Em terceiro lugar ela é apontada como exemplo de submissão. Ela disse "eis aqui a serva do Senhor. Cumpra-se segundo a sua vontade". Ela era uma mulher submissa ao seu Deus e como tal, se apresenta para servir às ordens de Deus, com tudo o que tem: sua vida!
Ela é também exemplo de santidade. Ser "santo" significa ser "separado", "dedicado" para algo ou alguém. E Maria era assim: dedicada com todo o seu corpo e alma a Deus e ao seu propósito.Maria é, também, vista como a mais Bem-aventurada de todas as mulheres. Por ser a mãe do Salvador; por receber em seu ventre o Verbo da vida; por amamentar aquele que nos sustenta com sua mão; por cuidar daquele que cuida de nós. O que ela presenciou, viveu, sentiu, contemplou, nunca jamais poderá ser feito por outra mortal. Ela, mais do que qualquer outra é, sim, Bem-aventurada! Em resumo, podemos assumir tudo o que foi dito por Karl Barth quando ele assim se expressa: "Maria é um fator indispensável na proclamação bíblica pela ausência da ênfase em sua pessoa, pelo significado infinito de sua modéstia e humildade, de quem só recebe a bênção".[15] De acordo com esta leitura, sua grande marca é, nas palavras do Bispo Sumio Takatsu "A vida oculta em Cristo, sem aparecer no primeiro plano e nem no 'kerygma'apostólico".[16]
Conclusão
Como vimos, há, entre os anglicanos e entre os cristãos reformados, um espaço relevante que é dedicado à pessoa da virgem Maria. No entanto, este espaço tende a ser menor do que aquele que é dado pela igreja romana. Vimos também que no anglicanismo e nas demais igrejas reformadas, os santos em geral, e Maria, em particular, são exemplos de vida para todos os cristãos. O maior exemplo desta postura dentro da liturgia anglicana, é a oração adicional presente à página 208 do LOC que diz o seguinte: “Ó Deus, Rei dos Santos, nós te louvamos e glorificamos teu Santo Nome por todos os teus servos que já encerraram sua carreira em tua fé e temor; pela bendita virgem Maria; pelos santos patriarcas, profetas, apóstolos e mártires; e por todos os demais teus servos justos, tanto os conhecidos como os desconhecidos; e te rogamos que nós, estimulados por seus exemplos, ajudados por suas orações e fortalecidos por sua comunhão, sejamos também participantes da herança dos santos em luz; pelos merecimentos de Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém”.[19] Esta citação nos coloca diante de um resumo do que afirma a tradição anglicana. Os santos são vistos como exemplos que fortalecem nossa vida e como intercessores (mesmo que orem genericamente) junto ao Pai. Esta doutrina tem base, acima de tudo, na doutrina histórica da “comunhão dos santos” e possui uma vasta aceitação em todos os seguimentos da comunhão anglicana. Para concluir, devemos reconhecer que por trás de toda dificuldade que temos para sentar e refletir sobre os grandes temas da salvação, existe uma história cheia de ódio, de desamor, de intriga e de sofrimento. Não é fácil fazer com que estas parcelas separadas (pela falta de humildade) do corpo de Cristo reconheçam sua parcela de culpa na separação. Mas pelo menos devemos olhar para o Colégio Apostólico com outros olhos. Eles eram homens diferentes; com panos de fundo diferentes; origens diferentes e temperamentos diferentes. Mas eles tinham duas coisas em comum: o desejo de cumprir a Missão que seu Senhor lhes dera e a presença de Maria entre eles. Como uma mãe preocupada com o bem estar dos filhos, Maria nos dá a mesma orientação que deu àqueles que estavam nas bodas de Caná e que serve de texto base para este Congresso Mariológico Mariano: “fazei tudo quanto ele vos disser” (Jo 2:5). Se conseguirmos, ainda hoje, ouvir as instruções da Virgem, com certeza não faltará alegria (vinho) entre os convidados para a festa (do Reino). Que o exemplo da Bem-aventurada Virgem Maria nos inspire a todos e nos faça mais consagrados ao serviço da vida e da esperança.
Autor: O Rev. Jorge Aquino é Presbítero da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. É membro da Ordem Evangélica de Santo Estevão Mártir. Por questão de espaço não pudemos olocar este excelente texto na íntegra. Para isso acesse: http://www.psj.org.br/codigos/pt/paginas/artigos/maria_tradicao.htm